Essa
relação de passado e presente que permeia o cotidiano de Monte
Gordo é tema da terceira reportagem da série “Camaçari 268 anos:
Saberes dos Territórios”.
A
professora aposentada, Marta Pereira, de 74 anos, nasceu, cresceu, e
segue vivendo em Monte Gordo. Para ela, não há lugar melhor no
mundo. “Cresci, estudei e trabalhei aqui a minha vida toda, vi de
perto a evolução chegar em Monte Gordo, e eu amo Monte Gordo. Eu
posso sair, passear – Fortaleza, Rio de Janeiro –, vou pra todos
os lugares mas não troco Monte Gordo e dou o maior valor. Fico
indignada quando eu vejo gente daqui e outros que vieram de lá, que
estão aqui, falarem de Monte Gordo, não têm noção do que é
Monte Gordo”, afirma.
Para
Marta, um dos principais fatores que torna a localidade tão especial
é a riqueza cultural, que segue viva apesar de todas as mudanças.
“A cultura daqui continua mesmo com essa evolução toda,
antigamente a gente tinha dois festejos de São Bento, Bumba Meu Rei,
Bangariô, muitas manifestações culturais para preservar a nossa
tradição, e aqui também é um lugar muito preservado, tem muita
natureza, é uma coisa linda”.
E
foi com o objetivo de manter viva a memória dessas tradições, que
o pedagogo Lucas Gois criou o projeto ‘Historiando Monte Gordo’,
onde ele resgata manifestações culturais da região e as apresenta
para as novas gerações.
“Quando
eu nasci, da pouca idade que eu tenho, não tinham mais muitas
manifestações culturais sendo apresentadas. Não é que não
existiam mais, mas as pessoas que faziam estavam meio que adormecidas
em casa, com as limitações por causa da idade. Minha avó era uma
dessas pessoas e a partir de minha avó, que se chamava Bangô,
fui ao encontro de outras pessoas da comunidade para tentar resgatar
toda essa cultura que estava apagada. Hoje a gente dá
graças a Deus que conseguiu. De
várias manifestações, 20 estão de volta, resgatadas no grupo que
nós criamos, que é o grupo Bangariô”, relata Lucas.
Ele
destaca que é preciso valorizar e reconhecer a importância da
história viva em cada morador. “O que eu mais gosto em Monte Gordo
é um pouquinho de cada coisa, mas o principal são os mais velhos,
pela sua história, trajetória de vida, porque cada um que eu ouço,
é uma história diferente, é um encanto novo, eu acho que é seu
povo mesmo”.
Lucas
ainda ressalta que para que haja a construção de um futuro melhor,
é necessário reconhecer o passado. “Quem não sabe de onde vem,
não sabe para onde vai, porque a nossa comunidade tem uma história
rica, mas as pessoas desconhecem, assim como Camaçari em si, porque
nós fazemos parte dessa história. Então, a gente precisa entender
de onde a gente veio, para poder caminhar para o futuro”,
enfatiza.
Entre
a natureza e a cultura, Monte Gordo mantém uma identidade construída
ao longo dos anos pelos moradores, que seguem lutando para que a
comunidade avance, mas sem esquecer o principal patrimônio: seu
povo.