O que começou como o
reaproveitamento da horta escolar se tornou uma das experiências pedagógicas
mais significativas da Rede Pública Municipal de Ensino de Camaçari.
Desenvolvido na Escola Experimental Marina Tavares Cardoso de Assis, no bairro
Gleba E, o Projeto EcoSala funciona com a proposta de reunir teoria à criação
de um espaço de vivências reais, através das quais as crianças interagem com a
natureza. Alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a iniciativa adota
uma metodologia ativa, com foco na pesquisa, no protagonismo estudantil e na
resolução de problemas.
Atendendo a toda a
comunidade estudantil da unidade, que oferta ensino em tempo integral da
Educação Infantil ao Ensino Fundamental I, beneficiando cerca de 250 alunos, o
EcoSala, que tem apoio da Secretaria de Educação de Camaçari (Seduc), foi
selecionada pelo Ministério da Educação (MEC), por meio do Edital n.º 1/2026,
entre outras 1.801 escolas, como uma das experiências inspiradoras de educação
integral e em tempo integral do país. Com o reconhecimento, o projeto passou a
integrar a plataforma digital Mapa de Experiências Inspiradoras e o espaço de
articulação Rede de Trocas, iniciativas do MEC voltadas à difusão e à troca de
conhecimentos pedagógicos inovadores que fortalecem a educação integral.
A iniciativa nasceu do
planejamento pedagógico e ganhou caráter coletivo, contando com a participação
não só dos estudantes e professores, mas de toda a comunidade escolar, que se
envolveu na manutenção do espaço instalado a céu aberto. “O Projeto EcoSala
utiliza o ambiente natural como território educativo. Além do cultivo de
hortaliças, aipim, banana e plantas medicinais, como capim-santo, o espaço
mantém compostagem com restos de alimentos e atividades como construção de casa
de taipa com referência à história africana e quilombola, debulha do feijão,
acendimento de fogo com lupa e preparo de alimentos em fogão a lenha”, explicou
a coordenadora pedagógica da unidade escolar, Ivana Bispo.
A vivência inclui também a criação de pequenos animais, que se tornou conteúdo
pedagógico e mobiliza os estudantes no cuidado diário e na observação, com
desdobramentos em produção textual, como contos, diários e bilhetes produzidos
nas aulas de língua portuguesa. O contato direto – pisar na terra, tocar a
vegetação e vivenciar o manejo do espaço – é tratado como parte essencial do
currículo, integrando ciência, matemática, linguagens, cultura e
ancestralidade.
A coordenadora explica, ainda, que o princípio é trabalhar com os recursos
disponíveis, utilizando alternativas como o plantio em garrafas pet
quando não há estrutura ideal, para garantir que as vivências não deixem de ser
oportunizadas. A estratégia tem gerado efeito multiplicador, com estudantes
replicando hortas em casa e levando a proposta para além dos muros da escola.
Para a professora de
língua portuguesa do 2º ano, Sinara Oliveira, a perspectiva é que as crianças
possam interagir e vivenciar experiências vivas e significativas. “A partir
dessas experiências, passamos a fazer a observação do comportamento dos
animais. Com relação aos pintinhos, por exemplo, fomos acompanhando o
desenvolvimento deles e fizemos a relação pedagógica, trabalhando o gênero
literário do conto sobre a chegada dos bichinhos, elaborando um diário sobre
eles. Hoje eles já cresceram e quando o primeiro galo cantou, foi uma tremenda
festa!”, revelou a educadora, completando que a dinâmica contribui para que a
criançada cultive o respeito, além de amor e zelo pelos animais.
A participação dos
familiares com o projeto também foi considerada positiva e efetiva. “Existe uma
troca de saberes entre os familiares e os alunos. Tivemos uma experiência na
qual a mãe de uma criança olhou os pintinhos e disse que tinha dois machos e
duas fêmeas. Até então não sabíamos diferenciar. Ela explicou que quando a
crista for maior é galo, quando for menor é fêmea. O mesmo aconteceu com os
jabutis, quando falou que a diferença está no formato do casco. Então, eu pedi
para ela dar essa aula para as crianças e foi um sucesso”, contou Sinara.
Sobre o envolvimento
dos estudantes, a professora do 5º ano, Mônica Lima, destacou a aprendizagem de
novos saberes e a inclusão. “A experiência vivenciada pelos nossos alunos, aqui
no espaço EcoSala, tem sido de grande significado. Produzem poemas a partir da
observação da natureza, o contato estimula a criatividade e cuidado com esse
ambiente que eles tanto gostam. Principalmente as crianças atípicas, que fazem
questão de estar lá interagindo e se desenvolvendo, e isso é muito
gratificante”.
Mônica contou que a
comunidade do entorno da escola participa e também é beneficiada. “No
fechamento do nosso projeto da casa de taipa, uma avó ficou muito emocionada ao
lembrar que, na infância, construiu e morou em uma e estimulou o neto a tocar
no barro, a viver essa experiência. Os moradores da Gleba E pode vir pegar
terra adubada para plantio, produzida pelos alunos, através do processo de
compostagem. Outro dia, recebemos coentro de um aluno que fez uma horta
suspensa em casa, ou seja, existe uma partilha de conhecimento e nossas
crianças atuam como agentes disseminadores”, concluiu.