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Foto: Rafael Küster e Patrick Abreu |
Cidade
baiana que carrega memória indígena, cultura popular e força
operária. Assim é Camaçari, quarto município mais populoso do
estado e o segundo em número de habitantes na Região Metropolitana
de Salvador. Neste ano de 2025, completando 267 anos de emancipação
política e muita história, Camaçari celebra o tempo, as conquistas
e, sobretudo, o povo de alma aguerrida, os rostos que moldaram e
continuam moldando a identidade camaçariense, e que fazem desta
terra um lar de raízes profundas, onde o passado pulsa presente.
Com
início datado em 1558, às margens do Rio Joanes, Camaçari tem como
berço Vila de Abrantes, através da fundação da Aldeia do Divino
Espírito Santo. É nesse coração ancestral que vive Rivonildes de
Jesus da Silva, 46 anos, reconhecida na Aldeia Tupinambá de Abrantes
como Magé Rivia Tupinambá. Olhos fincados no futuro e firmeza de
quem carrega gerações, ela rememora marcos iniciais na história do
município.
“Nosso
povo Tupinambá, de resistência e de luta, é a história da
Camaçari marcada por ancestralidade, acolhimento, justiça e também
pela mistura de povos negros, de cultura, de fé. Quando eu falo de
mim, eu falo de Camaçari. Quando eu falo de Camaçari, eu falo do
meu povo, do respeito ao bioma. Eu sou uma mulher bioma e restinga, e
tudo isso é a consistência de Camaçari", afirma Rivia, mãe
atípica, artesã e escritora.
A
ascendência Tupinambá provém do avô José Florentino – o Zé
Fulô, e do pai Geraldo Florentino da Silva, mais conhecido como
“Matias”. Mãe de duas meninas, uma delas uma criança com
deficiência, Rivia lembrou que atualmente 26 famílias constituem no
município a população Tupinambá originária. Para o futuro, ela
almeja ressignificação.
"O
desejo é fomentar o conhecimento cultural sobre o nosso povo. Levar
para a realidade pedagógica das nossas crianças e jovens o
pertencimento, a identidade indígena e Tupinambá da cidade. Quem é
de Abrantes sabe que Camaçari nasceu aqui e precisamos expandir essa
compreensão cada vez mais. Dessa maneira, nosso legado se mantém
vivo e respeitado", acrescentou Rivia.
Saindo
de Abrantes e chegando à sede do município, Jandira da Conceição,
94 anos, traz marcas de outra versão do tempo, mas com a mesma força
de quem faz história na cidade. Natural de Mata de São João e
coração rendido por Camaçari, a aposentada retrata o orgulho de
ter criado os cinco filhos no município e, agora, a alegria de poder
contemplar os nove netos - entre eles o cantor, compositor e
percussionista Danrlei Orrico (O Kanalha) - e sete bisnetos,
representarem o futuro da localidade. “Essa cidade me acolheu. Aqui
criei minha família”, contou.
Em
linhas culturais, Jandira é uma das guardiãs do samba de roda e da
religiosidade católica no município. De lavadeira e vendedora
ambulante a ex-funcionária da Escola Municipal São Tomaz de
Cantuária, a aposentada abre as portas de sua residência nos meses
de junho para realizar a trezena de Santo Antônio - tradição que
mantém há mais de 70 anos.
"Me
sinto muito feliz de ver a casa cheia. Aqui o povo reza, dança,
come, brinca, faz seus pedidos e agradece pela vida. Eu amo Camaçari
e amo tudo que consegui construir por aqui", endossou.
Na
mesma cadência de tempo, Virgulino Alves, 93 anos, testemunhou o
crescimento vertiginoso de sua terra. Filho de Camaçari, o
aposentado trabalhou no então Polo Petroquímico quando a cidade
ainda aprendia a lidar com o futuro industrial pungente que se
aproximava. Pai de 18 filhos, avô de 38 netos e bisavô de 28
bisnetos, o ex-operário é parte da geografia afetiva de Jauá,
Barra do Jacuípe e da sede, onde mora atualmente.
"Essa
cidade era outra. Tem horas que paro e fico lembrando como tudo está
diferente. Bate saudade, é muita gente, muito carro e coisas novas
que eu nem sei usar, mas também fico feliz de ver aquele Polo
Industrial que eu trabalhei antigamente, hoje, tão grande. Só rezo
que o futuro seja bom para essa cidade e para todos, com
oportunidades, como foi um dia para mim", disse.
Em
junho, o Polo Industrial de Camaçari completou 47 anos de
existência. Primeiro complexo integrado do setor petroquímico no
Hemisfério Sul e marco da industrialização no Nordeste, o polo
camaçariense é um pilar fundamental para a economia baiana,
respondendo por cerca de 22% do Produto Interno Bruto (PIB) da
indústria de transformação do estado.
São mais de 80 empresas atuantes, responsáveis em movimentar cerca
de US$ 15 bilhões anuais.
E
se cada canto de Camaçari tem uma voz que ecoa representatividade, a
Aldeia Hippie de Arembepe é lembrada por Álvaro Figueiredo Machado,
87 anos. Ex-bancário, ele é um dos integrantes mais antigos do
local, que surgiu no final da década de 1960 e é considerado
símbolo de liberdade, arte e conexão com a natureza, além de ter
projetado Camaçari para o mundo.
"Eu
vi aquele lugar nascer. Na época, era bem novinho, já trabalhava
como bancário e tinha viajado alguns locais do mundo. Mas, foi
quando retornei de Machu Picchu, no Peru, que decidi viver mais
intensamente a energia da Aldeia de Arembepe. De lá para cá, só
tenho amor por lá", compartilhou Álvaro.
Atualmente,
o aposentado se divide entre a moradia em Caldas do Jorro –
distrito do município de Tucano (BA), na própria Aldeia Hippie de
Arembepe e na casa do irmão mais novo, no bairro do Alto da Cruz.
Pai de um filho e avô de uma neta, Álvaro é ponte entre o urbano e
o natural.
"Espero
que a Aldeia nunca acabe. Ali é um dos patrimônios de Camaçari e
preserva a filosofia do movimento hippie
de todo o mundo há décadas. Aquele chão já recebeu Janis Joplin,
Mick Jagger, Roman Polanski e Rita Lee", complementou.
Em
meio aos relatos, Camaçari segue expandindo como cidade que acolhe,
forma e transforma. Cada rosto que habita, trabalha, ama e sonha, é
parte indissociável da história que continua sendo escrita com
alma, luta e coração.