04/09/2026

Tradição e ancestralidade fortalecem a identidade de Parafuso

Uma comunidade repleta de ancestralidade, cultura e afeto. É assim que os moradores de Parafuso costumam definir a região, tema da segunda reportagem da série “Camaçari 268 anos: Saberes dos Territórios”. 

Com o objetivo de preservar as tradições culturais, o Mestre Albertino criou o Samba de Caboclo de Parafuso no ano de 1990. O grupo é presença marcada nas festas populares do município com a indumentária rústica e natural do caboclo de palha.

“A tradição do Samba do Caboclo é muito ancestral, me lembro de quando minha mãe contava essas histórias, e a gente resolveu resgatar a tradição, porque eu pensei: ‘isso aqui tá dentro de Parafuso, isso aqui é de Parafuso, então tem que ter algo que mostre a nossa ancestralidade’. Então eu fui juntando todas as peças e se formou o Samba do Caboclo de Parafuso”, relata Albertino. 

Para ele, manter a participação do Samba do Caboclo em eventos como lavagens e desfiles cívicos é uma forma de levar a cultura ancestral para as novas gerações.“Participar dos desfiles e das lavagens é sempre uma alegria, é o momento das pessoas conhecerem o nosso trabalho, através das nossas apresentações, onde a gente tem o contato com a nova geração, e essa nova geração precisa conhecer as raízes de Parafuso, e a cultura é uma boa porta de entrada para esse contato”, destaca. 

A preservação ambiental e cultural da comunidade são destacados como um dos principais fatores que fortalecem a conexão do Mestre Albertino com Parafuso. “O que eu mais gosto em Parafuso é viver aqui, minha mãe diz que eu enterrei o umbigo aqui em Parafuso, porque eu posso viajar para qualquer lugar no mundo, mas sempre vou voltar para Parafuso. Aqui é uma comunidade que tem contato com o meio ambiente, que a gente ainda tem essa preservação cultural, então isso me faz presente, isso me faz viver mais, a gente tem os pés no chão, é uma comunidade muito ancestral”, explica. 

O sentimento também é relatado pela baiana de acarajé e moradora de Parafuso, Sandra Paula. “Eu não troco esse lugar por nenhum lugar do mundo, posso até passear, viajar, mas eu sou enraizada em Parafuso. Parafuso é um lugar maravilhoso e eu sou muito grata a Deus, por abençoar minhas mãos, porque tudo que eu faço, tudo que eu levo pro meu tabuleiro é com muito respeito, muita dedicação, muita fé, muito axé e nada é por acaso”.

Sandra começou a vender acarajé após perceber a ausência de comerciantes da comunidade no tradicional festejo do São Pedro de Parafuso. “Foi quando eu tive a ideia de chamar minha sogra e minha cunhada pra vendermos acarajé, e foi quando tudo começou. Me tornei baiana de acarajé e agora em 2026 eu completo 15 anos como baiana de acarajé, e tenho muito orgulho e muito respeito pela profissão que eu estou hoje”, conta. 

Mais do que uma fonte de renda, o tabuleiro de Sandra representa a continuidade de uma tradição que carrega memória e resistência. “Quando eu monto meu tabuleiro, eu não levo só a comida. Eu levo a alegria de encontros e toda uma história, mas existe a questão do respeito. Respeito com o alimento, porque ele é de matriz africana, vindo dos nossos ancestrais e tem toda uma história, é a luta do povo, da resistência do povo negro e a gente precisa, além de trazer o sustento pra família, respeitar esse alimento”, ressalta.

Assim, Parafuso revela a força de uma comunidade que tem na ancestralidade uma das suas principais riquezas. São saberes que seguem vivos e fortalecem a construção de um futuro melhor para quem vive em Parafuso.


Fotos: Rafael Kuster e Cauê Soares

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