02/09/2026

Desfile da Gleba E atravessa gerações e mantém viva a memória da comunidade


As histórias, culturas e tradições que formam a identidade de Camaçari são o foco da série “Camaçari 268 anos: Saberes dos Territórios”, que celebra o aniversário do município através dos saberes e das memórias de suas comunidades. 

O mês de setembro em Camaçari é marcado por alegria, expressões culturais e musicalidade com a realização dos tradicionais desfiles cívicos. A festa começa no dia 7, com o desfile da Gleba E, que abre a programação festiva do mês e comemora a Independência do Brasil. Em uma tradição que atravessa gerações, a Rua das Flores é tomada pela arte dos estudantes, grupos culturais, fanfarras e diversas outras instituições que participam do evento. 

Antes de integrar o calendário oficial de eventos da cidade, o desfile surgiu como uma confraternização entre as escolas e moradores do bairro, conforme explica a diretora pedagógica do Centro Educacional Sistema Master (Cesma), Ednalva Oliveira.

“Em 1988 nós fizemos o primeiro desfile na Gleba E, porque não existia essa celebração do 7 de setembro em Camaçari. Até que nós, moradores, começamos a fazer um desfile, juntamos a Associação de Moradores, a fanfarra liderada pelo nosso querido amigo Helmo, a equipe do Anísio Teixeira, a equipe aqui do Cesma e várias famílias do bairro. O desfile foi um sucesso, a comunidade aplaudiu, no segundo ano pedimos o apoio da Prefeitura e assim virou tradição”, relata a educadora.

Junto com o desfile, surgiu também a alvorada da Gleba E, criada pelo morador Helmo de Oliveira, que percorria o bairro com sua fanfarra, esquentando o clima para o cortejo. Helmo faleceu no ano de 2014, mas a alvorada segue viva sob o comando de seu filho, popularmente conhecido como Helminho. 

“Meu pai foi um dos fundadores desse desfile e criou a fanfarra do nosso bairro. Ele conseguiu alguns instrumentos doados pela Bamuca e criou o projeto Fanfarra Juvenil de Camaçari, a Fanjuc. Foi com essa banda que ele criou a alvorada, onde todo 7 de setembro ele saía às cinco da manhã acordando o bairro, chamando o bairro para o desfile e todo mundo se animava”, conta. 

Helminho ressalta que desde pequeno aprendeu sobre a simbologia do desfile cívico da Gleba E para o município.“Meu pai era uma pessoa que ajudava a comunidade, ele amava a Gleba E, e sempre falava pra a gente valorizar o fato de termos um desfile aqui, afinal, ele fez parte dessa história, e acima de tudo sempre nos ensinou a sermos bons vizinhos e bons amigos”.

Criada por Helmo, a Fanjuc segue levando aprendizado para centenas de crianças através da música, tendo Helminho como instrutor. “É uma responsabilidade muito grande manter essa tradição viva, fazem 12 anos que ele faleceu, e eu tenho trabalhado para honrar o legado dele. Formei muitos alunos e eu ouço muitos pais de alunos falarem: ‘eu quero que você faça o que o seu pai fez comigo, com o meu filho, porque o que eu sou hoje eu agradeço ao seu pai e eu quero que meu filho seja o que seu pai passava pra mim’. Que foi o que ele nos ensinou: compromisso, responsabilidade, amor e comunhão”, afirma Helminho.

Após mais de duas décadas da primeira edição, o desfile da Gleba E continua sendo motivo de grande expectativa para quem participa. A gestora da Escola Municipal Anísio Teixeira, Iara Lima, enfatiza a importância de manter a tradição viva entre as novas gerações.  

“São novos alunos, uma nova geração, e a gente precisa trazer o pertencimento do bairro da Gleba E, e fazer com que eles entendam que isso faz parte do dia a dia, da cultura, e tudo que nós estamos trazendo aqui no desfile, nós trazemos no dia a dia dos alunos. A rede nos conecta com um tema e aí a gente começa a fazer um trabalho durante o ano para que quando chegue no dia do desfile isso seja transformado em arte”, conta a gestora. 

A Escola Anísio Teixeira está presente desde o primeiro desfile de 7 de setembro, e é uma das escolas mais esperadas do evento. “Eu particularmente estou muito ansiosa, mas está ficando tudo muito lindo, todos os elementos são feitos pelas nossas mãos com muito carinho, e é uma responsabilidade muito grande porque o Anísio é uma escola que está presente desde o primeiro desfile”, diz Iara.

Com a chegada de mais um desfile, a Gleba E renova sua tradição, celebra seus saberes e reforça o orgulho de quem pertence à comunidade. 

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